before sunrise
Ethan Hawke e Julie Delpy
o reencontro em Paris - antes do pôr do sol
Há nove anos aparecia um filme, muito simples e barato, no entanto era soberbo. "Before Sunrise" unia um Hawke em plena ascensão e uma "fresca" Julie Delpy. Francesa e americano conheciam-se num interrail pela Europa, em situações distintas, ele tinha acabado com a namorada em Madrid e regressava para os Estados Unidos (aproveitando para fazer um interrail sozinho), ela ia para Paris, ter com os pais... o local do romance? Uma Viena o mais real possível. O enredo? Jesse (Hawke) e Celine (Delpy) conversam sobre o seu mundo, o nosso mundo, fascinam-se com as ideias existencialistas, amorosas... com o que os rodeia. Uma conversa que se torna num romance entre os dois, poucas horas antes de se separarem.
Nove anos depois surge "Before Sunset", um título apropriado para um final que se esperava já desde a promessa com que termina o filme de 1994. Apresentado no Festival de Berlim, este filme promete, ao unir de novo Jesse e Celine numa retrospectiva das suas vidas, e do mundo fascinante que é o humano. Desta feita a conversa não inclui o romance de "Before Sunrise", apenas a "Última valsa em Paris de Ethan Hawke e Julie Delpy". 15 dias bastaram para as filmagens deste filme de Richard Linklater, que foi escrito pelo próprio e pelos dois actores ao longo destes últimos anos (muitas vezes por troca de e-mails). João Tomé
Aqui fica um esclarecimento previligiado pelo Vasco Câmara - in Público
A Última Valsa em Paris de Ethan Hawke e Julie Delpy
Pelo nosso enviado VASCO CÂMARA, em Berlim
Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2004
Viena já era deles. Encontraram-se em 1994, tiveram 14 horas para se conhecer, entre viagens de Inter Rail, e prometeram rever-se seis meses depois. Era assim que acabava "Before Sunrise" (aqui entre nós, ela, francesa, faltou ao encontro combinado; ele, americano, ficou à espera).
Agora. nove anos depois, têm Paris. Casaram-se ou têm "um relacionamento", ele está na capital francesa a promover um livro que escreveu sobre o encontro de uma rapariga francesa e de um rapaz americano, ela vive na cidade. E têm menos de hora e meia para porem o assunto em dia. Como é que acaba "Before Sunset"?
Para citar Julie Delpy, a rapariga francesa, Ethan Hawke, o rapaz americano, e Richard Linklater, o realizador que os juntou, tudo depende da perspectiva, tudo depende da reserva de romantismo e dos efeitos do cinismo. "Temos que ser um pouco românticos para fazer um filme assim, não?", diz Hawke. "Eu estou a tentar descobrir", diz, por sua vez, Delpy. "Dentro de mim talvez seja romântica, mas a ideia de romantismo mudou, agora que estou nos 30. Não é ser cínica. O romantismo é que se misturou com a realidade, com a amizade. Ou seja, romantismo, cinismo e realismo". "É isso mesmo", remata Linklater. "Somos romântico-realistas".
O que quer que sejam, "Before Sunset" tem já uma história de amor com o Festival de Berlim, e já que é uma "continuação" de "Before Sunrise", que valeu a Linklater o Urso de Ouro para a melhor realização no Festival em 1995, a reacção quase apoteótica no final da projecção, ontem, e na entrada do realizador e dos intérpretes na sala de conferência de imprensa, deixa expectativas para que algo também se prolongue. Urso de Ouro?
"Tour de force"
Esta equipa (é assim que eles se vêem, integrantes do grupo que fez um "labor of love" - Delpy e Hawke foram também argumentistas) não gosta de falar em "sequela". Explica Linklater: "A sequela envolve sempre o querer facturar a partir de um sucesso anterior. Não foi isso o que nos motivou, foi algo de pessoal."
A palavra preferida é "continuação", que também não dá conta do que é específico no filme. E que é algo assim: dois actores e um realizador reavaliam o tempo que passou para as personagens, Celine e Jesse, e para eles próprios, Delpy e Hawke. Que (actores e personagens) tinham 20 anos nos anos 90, quando fizeram um filme (hoje de culto) sobre aquele momento, que acontece a todos, em que se encontra alguém, num cenário de passagem, e alguma coisa acontece. Então visto daqui - de hoje -, o que é que aconteceu ali? Foi tudo imaginado? E o que é que deve acontecer agora?
"Fazer este filme, para mim, era importante, como quando se acaba o que ficou incompleto", diz Delpy. "Envolvemo-nos tanto, que sentimos que era preciso explicar mais coisas. Por exemplo, estando agora com 30 anos e falar de romantismo nesta idade". "Mal acabou a rodagem, pensámos logo numa continuação. Mas éramos ambos jovens, foi uma coisa tão pessoal, que tínhamos medo de fazer um mau filme e estragar essa memória", acrescenta Hawke.
A prova de que durante estes anos falaram disso, trocando emails e tudo (parte do argumento foi escrito assim), até está num filme anterior de Linklater, "Waking Life", que misturava animação e imagem real e em que o par aparecia, mostrando, timidamente, que tinha vontade de regressar.
A forma como Delpy/Hawke/Linklater o fazem agora é que é de deslumbrar: um ponto de encontro mágico, indefinível, entre o prodigiosamente escrito e interpretado e o espontâneo do vivido. O "tour de force" de "Before Sunset" (considerando que a rodagem durou pouco mais de duas semanas), é simular que tudo se passa "ao vivo", em tempo real, que o filme dura o tempo que a personagem de Hawke tem antes de apanhar o avião de regresso a Nova Iorque.
"Foi tudo escrito, nada foi improvisado", explica Delpy. "O que tivemos de fazer foi um exercício de digerir as palavras que escrevemos, para que tudo parecesse uma conversa". "Só assim", continua Linklater, "só a espontaneidade sustenta um filme em que não há narrativa com princípio, meio e fim. Tinha que prevalecer uma ideia de presente".
Nos planos-sequência, enormes, em que Celine e Jesse conversam no café, andam pelas ruas, entram em casa dela, apanham um táxi, o espectador está sentado com eles, anda por Paris com eles - e faz também o seu trabalho de memória.
Nada se passa ("não há drama neste filme", reconhece Linklater), a não ser, o que é muito, a cumplicidade dos "esquecimentos" e da nostalgia, os ressentimento e fantasias, as mudanças de humor, aquilo que irrompe em turbilhão nas personagens e não consegue ser negado - mas que logo de seguida se acalma. A memória coloca a fasquia demasiado alta para a realidade.
Como é que acaba "Before Sunset"? Depois de um espaço para canções. Celine canta uma valsa a Jesse - Julie Delpy canta, na verdade; essa valsa está incluída no seu primeiro disco a solo, editado em França o ano passado.
E depois da valsa? Depende da perspectiva, depende da reserva de romantismo ou dos danos provocados pelo cinismo em cada um. Mas mesmo no pior dos casos, a memória sempre se encarrega de trabalhar os dados. "We'll always have Paris!" - não era isso que se dizia num filme romântico?
Posted by serEmot at fevereiro 11, 2004 03:07 PM